Francisco Ancona Lopez

Eugenio C, 60 anos. A costa brasileira teve seu Rei!

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Era setembro de 1966 quando sua proa, elegante como poucas na indústria naval, apontou na baía da Guanabara. Nascia a relação de amor e fidelidade entre o majestoso Eugenio C e o Brasil, que durou 30 anos exatos. O projeto da espetacular embarcação, comissionado pela então Costa Armatori – ainda uma familiar e próspera companhia italiana – ao Cantieri Riuniti dell’Adriatico, marcava a transição das viagens de linha regular para o ainda embrionário segmento de cruzeiros de férias. A aviação comercial já apresentava números massivos e dominava o transporte de passageiros nas longas distâncias, que sustentara por décadas os gigantes dos mares. Assim, nascia “o navio que antecipa o futuro”, seu slogan de lançamento. Um transatlântico facilmente adaptável às necessidades da crescente demanda de lazer sobre as ondas, como ficou de fato demonstrado nas décadas seguintes.

Eugenio C na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro (foto: Costa Crociere)

  
Os rebocadores lançavam seus jatos de água ao alto, manifestando a alegria de receber o mais novo navio italiano. As imagens resgatadas em preto e branco trazem ao fundo a típica geografia carioca, com o Corcovado e o Pão de Açucar ainda parcialmente cobertos pela neblina da alvorada. Proveniente de Lisboa e com destino final Buenos Aires, ele vinha com seus 1650 leitos praticamente ocupados. Nenhuma das 510 cabines vazia. Daquela travessia inaugural em diante, foram muitas dezenas de regulares viagens transatlânticas até finais da década de 1970 – a partir dessa época, começaram os cruzeiros. O Eugenio C atracava nos pieres de Santos e do Rio de Janeiro todos os meses. Era conhecido como o “fita azul” da rota atlântica, o mais veloz entre os diversos que uniam a América do Sul à Europa. Em apenas 7 dias chegava a Lisboa, onde sua velocidade de 28 nós e a autonomia de combustível eram responsáveis pela façanha. Para referência, os navios de hoje costumam navegar numa média de apenas 18 a 20 nós. O conceito é outro, deixaram de ser meio de transporte, e tornaram-se destino de férias. Os “passageiros”, consequentemente, tornaram-se “hóspedes”.

Eugenio C (foto: Costa Crociere)

  
Nos anos 1970, o Eugenio C já protagonizou alguns cruzeiros longos e de grande prestígio, como voltas ao mundo e périplos da África, sempre a partir de Gênova. Passagem curiosa no entanto costumava acontecer nas escalas do navio no porto carioca: o Ministro da Fazenda da época, Delfim Netto, conhecido cultuador de finos hábitos gourmet, agendava reuniões na cidade naqueles dias, vindo de Brasilia, e sua assessoria conseguia marcar almoços a bordo. Naqueles tempos, havia elevadas taxações governamentais à importação de gêneros alimentícios estrangeiros. O ministro glutão, em mesa ricamente posta na “Sala da Pranzo Flauto Magico”, se fartava com os antepastos, as massas, o prato principal, as sobremesas, os queijos, o café espresso e os licores – todos vindos da Itália, França, Espanha. Produtos não encontrados aqui, portanto. Já no início da década seguinte, o Eugenio C fazia suas primeiras temporadas turísticas sazonais na América do Sul, zarpando da Argentina e do Brasil rumo à Flórida e o Caribe, e ainda à Terra do Fogo. Aos poucos foram se tornando frequentes os cruzeiros de Natal, Reveillon e férias de verão entre Santos, Rio e Buenos Aires – onde a nave costumava pernoitar e assim permitir a agentes de viagens, autoridades e convidados jantarem a bordo e passar algumas horas nos elegantes salões Rubino, Opale e Turchese, ao som das orquestras italianas. O mito dos mares ia assim sendo cultivado.

Eugenio C (foto: Costa Crociere)

  
Na segunda metade dos anos 1980, a operação de cruzeiros de cabotagem por navios estrangeiros foi proibida no Brasil pela Sunamam – Superintendência Nacional da Marinha Mercante, e durante alguns anos o mercado local ficou estagnado. Que empresa arriscaria vender só viagens internacionais? Seria lógico trocá-las por outros destinos como o próprio Mediterrâneo ou o Caribe, ocupando assim suas embarcações e tripulações. Pois a armadora italiana proprietária do Eugenio C não titubeou: enviou para cá a estrela de sua frota, que realizou apenas trajetos tocando portos estrangeiros – driblando a cabotagem, portanto – e manteve-se fiel ao público brasileiro, que não ficou sem essa opção de turismo nas férias. Foram operados alguns roteiros à região do Prata, o tradicional grande tour ao Caribe, à Terra do Fogo, e até outros à Bahia – que antes de regressar ao Rio e Santos, esticavam a rota até a capital argentina! Assim, ao invés de durarem os habituais 7 ou 8 dias, levavam 13 dias. E ainda assim vendiam bem, a despeito de custarem quase o dobro pela maior duração. Certamente nenhum outro navio na época seria capaz de viabilizar economicamente uma temporada por aqui. O Eugenio C tinha público fiel como nenhum outro.

Eugenio C na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro (foto: Costa Crociere)

  
Em suas três décadas dedicadas ao Brasil, protagonizou inúmeros episódios marcantes. Teve participação especial no longa metragem “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de 1967 – na principal cena do filme, o helicóptero pilotado pelo então rei da juventude sobrevoava o navio, exibindo panoramicamente toda sua beleza e grandiosidade. Era seu primeiro ano por aqui, a visibilidade marcou seu nome e sua imagem junto ao grande público. Em sua trajetória em nossas águas, foi locação de outros filmes e novelas. Entre eles, destaque para “Vai trabalhar, Vagabundo II – A Volta”, de 1989, com Hugo Carvana, Marieta Severo, Chico Buarque e grande elenco, que agitou o porto carioca na produção de suas cenas finais. O média metragem infantil “Um cruzeiro atrapalhado”, produzido para a TV em 1988, teve farta exibição em canais abertos nos anos seguintes. A novela de época “Salomé”, campeã de audiência da TV Globo em 1991, levou elenco estrelado a bordo: Patricia Pillar, Suzy Rego, Carlos Alberto, Rubens de Falco, Mateus Carrieri, Flávia Monteiro, entre outros. Sua reinauguração depois de grande reforma e restyling em 1987 foi marcada por glamuroso evento na orla carioca, com show pirotécnico de fogos de artifício na praia e em balsas na águas tranquilas da “princesinha do mar”, simulando uma festa de Reveillon fora de época (aconteceu em meados de dezembro, semanas antes da virada de ano). Uma espetacular regata com cerca de 100 veleiros oceânicos teve sua largada dada pelos apitos da chaminé do navio em Copacabana, em 1988 – a praia lotada vibrava com a cena. Dezenas de equipes de TVs estiveram gravando matérias a bordo dele nos anos 1980 e 1990. Sempre mostrando o alto padrão de serviços e entretenimento oferecidos – e nesse quesito, memoráveis shows foram apresentados em seus salões e teatro: Toquinho, Jair Rodrigues, Martinho da Vila, Nora Ney, Maria Creuza, Carlinhos Vergueiro, Célia, Traditional Jazz Band, entre outros.

Eugenio C (foto: Costa Crociere)

  
Naturalmente, houve também episódios adversos, alguns bastante mediáticos. A colisão com um contra torpedeiro da Marinha brasileira cancelou o cruzeiro de Reveillon de 1984/85, gerando vultoso prejuízo mas nenhuma vítima; um misterioso furto de jóias numa das suítes de luxo durante um cruzeiro ao Caribe; o desaparecimento (jamais esclarecido) de um hóspede na última noite de viagem a Buenos Aires, para desespero de seus pais e irmã, com quem dividia a cabine; o encalhe no Rio Mississipi a caminho de New Orleans, que atrasou por dois dias a continuação de cruzeiro ao Caribe; um imprevisto black-out que danificou toda sua parte elétrica durante a manobra de partida da travessia Santos-Gênova, em 1995. E alguns outros pequenos incidentes, que terminaram por não arranhar a imagem de excelência que este último representante da era dos transatlânticos dos anos dourados deixou.

Eugenio C na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro (foto: Costa Crociere)

  
Depois de sua aposentadoria da frota italiana, a própria armadora ingressou na era dos meganavios – como de resto suas concorrentes européias e norte americanas. Passou a contar mais o gigantismo, a tecnologia, as atrações típicas de parques de diversões – cinema 4D, simuladores de Fórmula 1, toboáguas, piscinas de ondas para a prática de surf, pistas de boliche. Sinal dos tempos, e da massificação dos cruzeiros. Em crônica publicada na Folha de São Paulo em dezembro de 1996, o notável escritor Carlos Heitor Cony, amante do Eugenio C e de suas travessias, sintetizou em lapidares frases a sensação de testemunhar seu fim: “O Eugenio C chegava de sua última viagem e estava atracado num dos píeres do porto de Gênova. Funcionários tiravam aparelhos eletrônicos de bordo, esvaziando suas entranhas. Moças e rapazes da tripulação desciam de suas escadas, chorando. Imenso em sua brancura, o gigante se preparava para o funeral dos navios, o crepúsculo dos deuses”. O título do texto de Cony – “Eugenio C flutua na memória” – continua atual. Não houve e certamente não haverá outro navio como ele. Quem viver, não verá!

Reveillon a bordo do Eugenio C (foto: Costa Crociere)

  
Nascido em São Paulo em 1958, Francisco Ancona Lopez é publicitário e consultor de marketing. Atuou em turismo e cruzeiros marítimos durante 40 anos, muitos deles como consultor de marketing na Costa Crociere. Trabalhou com os pioneiros da indústria, comandou eventos e ações de comunicação e formou montou equipes de artistas e tripulantes. Além disso, liderou iniciativas como o desenvolvimento e implantação de novos roteiros e o lançamento e popularização dos cruzeiros temáticos no Brasil. É o autor do livro Memórias do Deck, a mais completa obra já editada sobre a história dos cruzeiros marítimos no país. O livro é uma referência obrigatória para os amantes e pesquisadores do turismo marítimo. Para adquiri-lo, acesse o site da editora Garoa Livros. E acompanhe mais histórias e curiosidades sobre cruzeiros marítimos na página do Francisco no Instagram.