(por Francisco Ancona Lopez; fotos: Daniel R.Carneiro / DRC Imagem e autores diversos)
Se recebemos hoje em nossos portos alguns navios de cruzeiros de grande porte, é oportuno lembrar alguns nomes históricos que construíram esse mercado. Enquanto os modernizados e refrigerados terminais de Santos, Rio de Janeiro, Salvador (além das demais escalas em nosso litoral), recebem gigantes acima de 100 mil toneladas com mais de 300 metros de comprimento, é curioso recordar os tempos heróicos da atividade. Quando as embarcações acolhiam apenas algumas centenas de hóspedes, e as operações de embarque e desembarque aconteciam em inadequados terminais de carga. Pois um nome fundamental, que não pode ser esquecido, é o do paquete de bandeira portuguesa MV Funchal.
Percorrendo desde seu lançamento em 1961 a rota que ligava as ilhas atlânticas (em especial Madeira, Açores e Canárias) ao continente europeu, transportava pessoas, cargas e correio. Em 1972, cumpriu missão histórica, além de mediática: por ocasião do sesquicentenário da independência de sua principal ex-colônia, embarcou em Lisboa os restos mortais de Dom Pedro I (para os portugueses, Dom Pedro IV) rumo ao Rio de Janeiro, com escolta militar. Onde, apesar de dois dias de atraso por inconveniente técnico nos motores, chegou a tempo de cumprir o protocolo previsto para a cerimônia. À frente da comitiva lusa, o Almirante Américo Tomás, então presidente de Portugal. O evento foi transmitido ao vivo, ainda em preto e branco, para todo o país. O Funchal começava assim a entrar na vida dos brasileiros.
Dando-se conta que os serviços de transporte marítimo de passageiros tendiam rapidamente a ser substituídos pelas conexões aéreas, mais rápidas e econômicas, o operador do navio decidiu adaptá-lo tecnicamente para o emergente segmento de cruzeiros de lazer. Feitas as necessárias adaptações, foram incorporados a seu deployment dois destinos que se demonstraram vencedores: o norte da Europa, nos meses de verão no hemisfério Norte, e a América do Sul, no calor local. A ousada operação foi iniciativa da Abreu, o mais tradicional operador turístico português. Estreando temporadas regulares no Brasil na virada de 1973 para 1974, zarpou do Rio de Janeiro dia 26 de dezembro com destino a Mar del Plata e Buenos Aires, escalando também Santos e Montevidéu. De volta a terras cariocas, iniciou um Grande Cruzeiro à Amazônia com paradas em Salvador, Recife, São Luís, Manaus, Belém, Fortaleza, Natal e Salvador. Depois, ainda cumpriu um cruzeiro à Patagônia (até Ushuaia), e um de Carnaval, antes de regressar em travessia atlântica a Lisboa. Alguns anos antes, a paulista Agaxtur inaugurara o filão de fretamentos de navios europeus para cruzeiros em nossa costa, trazendo os italianos da Linea C.
Durante 12 anos (até 1985), coube à Abreu tornar o Funchal o símbolo da hospitalidade portuguesa em nossa costa. Nesse longo período, foram marcantes algumas características do produto, como a elogiada gastronomia e o entretenimento adaptado para o público local. De fato, no início das operações, encarregados da operadora percorreram as principais casas noturnas e de bailes de São Paulo para selecionar músicos e artistas que agradassem o público brasileiro. Para coordenar a equipe e apresentar jogos e espetáculos, foi contratado o showman Camilo Fernandes, já experiente de diversos anos nos navios do Lloyd Brasileiro. Marcaram época os cruzeiros entre portos brasileiros, e a bacia do Prata, além das concorridas travessias atlânticas. Provém dessa época a fama de que navegar no Funchal equivalia a se sentir em “uma casa portuguesa”, tamanha a cordialidade dos oficiais e da tripulação em geral, bem como da fartura e qualidade das refeições que reproduziam fielmente as receitas originais de Portugal.
Em meados da década de 1980, dois fatos contribuíram para que se interrompesse a presença regular do navio no Brasil. O primeiro foi a contínua ameaça, enfim confirmada, da restrição aos cruzeiros de cabotagem (entre portos brasileiros, sem tocar portos fora do país) por navios/companhias estrangeiras, medida adotada pela Superintendência Nacional da Marinha Mercante. O fato criou sérias dificuldades operacionais pois obrigava os armadores a “internacionalizarem” suas viagens, alongando-as e encarecendo-as. Foram anos de dificuldades só superados pela crise mundial da pandemia de Covid-19 entre 2020 e 2022. Outro fato relevante foi a transferência de propriedade da companhia armadora do Funchal. A Arcalia Shipping, de propriedade do armador grego Georgius Potamianos, adquiriu a embarcação em 1985.
Aliás, por conveniências fiscais/operacionais, na ocasião o Funchal teve seu registro transferido para o Panamá, deixando de navegar com a bandeira portuguesa depois de 24 anos. Neste cenário de transformações, a Abreu deixou de investir no fretamento do navio, além do mercado brasileiro sinalizar forte retração para os anos a seguir.
Em Dezembro de 1989, o Brasil elegeu novo presidente através de eleições diretas, fato inédito em 29 anos – o último tinha sido Jânio Quadros em 1960 (renunciou em Agosto de 1961, sendo sucedido por seu vice, João Goulart, deposto posteriormente pelo golpe militar de Março de 1964). O eleito, Fernando Collor de Mello, era originário de Alagoas, o que acentuou a força política do Nordeste brasileiro. Nesse momento, desponta no mercado turístico uma figura determinante para que fosse contornada a restrição à cabotagem: o influente empresário Milton Sanches. Com vasto currículo em importantes operadoras do setor, e já experiente na comercialização de cruzeiros marítimos, ele gestionou habilmente a flexibilização das restrições em vigor. Resultado: obteve o sinal verde para que na temporada de verão 1990/91 já fosse possível operar a cabotagem em nossa costa. Seu projeto tinha grande apelo comercial, pois era centrado em escalas no arquipélago de Fernando de Noronha, santuário ecológico de acesso restrito, com o apoio na promoção e divulgação dos estados envolvidos, interessados na captação de turistas de todo o Brasil e até do exterior. Os portos de Recife, Cabedelo (João Pessoa), Natal e Maceió, inseridos nos roteiros ao redor de Noronha, seriam beneficiados com as escalas do Funchal. Assim, os governos estaduais e municipais não pouparam empenho e verbas publicitárias. Desnecessário observar que as escalas frequentes na capital alagoana foram determinantes para a aprovação do projeto.
Milton Sanches precisava de um navio. Uma embarcação de porte pequeno que atendesse a limitação de acessos à ilha, mas de elevado padrão para satisfazer um público exigente, habituado a consumir produtos de qualidade. O Funchal atendia perfeitamente a estes requisitos, com a vantagem de possuir uma ótima imagem, construída nas temporadas com a Abreu. Este aspecto ajudaria a comercialização através dos agentes de viagem, que em boa parte já o tinham vendido a seus clientes. Milton era um hábil negociador, e a parceria com Potamianos não custou a se concretizar. A segunda vida do navio no Brasil foi um sucesso. Toda a década de 1990 e o início do novo século, quando o Funchal já completava 40 anos de navegação. Mais de 100 mil cruzeiristas conheceram Fernando de Noronha a bordo do Funchal.
Episódio que confirma sua boa estrela marcou a escala inaugural no Terminal Concais do Porto de Santos: em 23 de novembro de 1998 o italiano Costa Marina estava programado atracar no terminal. Seria a escala número 1 de milhares que viriam a seguir, das maiores e renomadas frotas globais. Uma polêmica questão técnica alterou o programa, levando o navio Costa para outro cais. A escala posterior, em 2 de dezembro, foi do Funchal. Nos anais, é ele o navio que inaugurou o principal terminal de passageiros do continente.
Quando encerrou definitivamente sua presença no Brasil, em 2002, o paquete português deixou saudades. Milton seguiu insistindo na operação junto ao arquipélago, programou diferentes navios para o destino (Vasco da Gama, Princess Danae, Pacific, Blue Dream, Rembrandt, Ocean Dream, Orient Queen, Bleu de France). Nenhum deles repetiu a performance do Funchal. O arriscado desembarque em mar aberto até o pequeno Porto de Santo Antônio na ilha, sua navegabilidade, a experiência dos Comandos e das tripulações, todos fatores que fizeram a diferença.
A mística da embarcação que mudou de donos algumas vezes, mas jamais trocou de nome. O carisma de suas pequenas dimensões, que lhe conferiam ambiente familiar. O fato de estar ainda presente no imaginário coletivo e perante os olhos de quem o avista atracado no Tejo, próximo do terminal de cruzeiros e da Estação Ferroviária de Santa Apolônia, 65 anos após ter sido lançado ao mar pelo estaleiro que o construiu, na Dinamarca. O Funchal é um capítulo fascinante da indústria de cruzeiros dos dois hemisférios. Merece a eternidade, no panteão dos valentes navios que enfrentaram e venceram tantas travessias.
Nascido em São Paulo em 1958, Francisco Ancona Lopez é publicitário e consultor de marketing. Atuou em turismo e cruzeiros marítimos durante 40 anos, muitos deles como consultor de marketing na Costa Crociere. Trabalhou com os pioneiros da indústria, comandou eventos e ações de comunicação e formou montou equipes de artistas e tripulantes. Além disso, liderou iniciativas como o desenvolvimento e implantação de novos roteiros e o lançamento e popularização dos cruzeiros temáticos no Brasil. É o autor do livro Memórias do Deck, a mais completa obra já editada sobre a história dos cruzeiros marítimos no país. O livro é uma referência obrigatória para os amantes e pesquisadores do turismo marítimo. Para adquiri-lo, acesse o site da editora Garoa Livros. E acompanhe mais histórias e curiosidades sobre cruzeiros marítimos na página do Francisco no Instagram.
