Viajante corporativo se torna o maior usuário de inteligência artificial do setor de viagens

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Levantamento global mostra que profissionais em viagem de negócios adotam IA duas vezes mais que turistas a lazer.
(fonte: Fecomércio/VOLL; foto: Divulgação)

O viajante corporativo se tornou o maior usuário de inteligência artificial dentro da indústria de viagens. Um levantamento que acaba de ser divulgado pela Skift, líder global em estudos sobre o mercado de viagens corporativas, mostra que profissionais em viagem de negócios usam ferramentas de IA para planejar deslocamentos com o dobro da frequência de quem viaja a lazer. O mesmo estudo aponta que a adoção cresce junto com a renda, o que coloca os clientes de maior valor do setor entre os primeiros a adotar a tecnologia.

Para Luiz Moura, conselheiro de turismo da FecomércioSP e cofundador e diretor de negócios da VOLL, plataforma de gestão de viagens e despesas corporativas líder na América Latina, o dado confirma um movimento que a GBTA (Global Business Travel Association) já havia identificado em pesquisa própria: a América Latina é a região com maior adoção de reserva de viagem assistida por inteligência artificial do mundo. “Duas pesquisas, conduzidas por organizações diferentes, com metodologias distintas, chegam à mesma conclusão por caminhos separados. Quem viaja a trabalho está à frente do restante do mercado na adoção de IA, e a América Latina está à frente do restante do mundo”, afirma.

Para Moura, o fenômeno tem explicação técnica, não apenas comportamental. “O viajante corporativo testa a tecnologia sob pressão real, num voo cancelado às seis da manhã ou numa reunião que não pode ser perdida. Ele não tem tempo para esperar um comitê decidir se a ferramenta é boa o suficiente. E a resposta a essa pergunta mudou muito nos últimos anos, mais rápido do que a maioria dos programas de viagem percebeu”, diz.

Essa mudança de capacidade tem sido documentada por pesquisas independentes sobre inteligência artificial. Um estudo da METR, organização que mede a capacidade de agentes de IA, mostra que o tempo de tarefa que um agente consegue concluir de forma autônoma, com taxa de sucesso de 50%, dobra a cada sete meses, em média, desde que a organização começou a medir esse indicador. Em 2023, os agentes mais avançados completavam sozinhos tarefas equivalentes a poucos minutos de trabalho humano especializado. Estudos publicados mais recentemente já registram agentes concluindo, de forma autônoma, tarefas equivalentes a várias horas de trabalho humano.

Segundo Moura, essa evolução ajuda a explicar por que o comportamento do viajante corporativo mudou antes da resposta institucional do setor. “Automação, para a maioria dos programas de viagem, ainda significa uma tarefa curta e repetitiva sendo feita por uma máquina. Mas a pesquisa mostra outra coisa: um agente que recebe um objetivo mais amplo, toma uma sequência de decisões sozinho e chega a um resultado sem supervisão constante. Isso está muito mais perto de trabalho delegado do que de automação simples, e explica porque o viajante que mais precisa de solução rápida foi quem mais adotou”, avalia.

Confiança exige governança

O executivo pondera, porém, que a velocidade de adoção não elimina a necessidade de supervisão. “A própria pesquisa da METR é clara ao dizer que esses números são estimativas, com margem de incerteza real, e que 50% de taxa de sucesso não é garantia. O caminho responsável não é entregar toda decisão a um agente porque a tendência aponta nessa direção. É desenhar governança que acompanhe a mesma velocidade com que a capacidade da tecnologia está mudando”, afirma.

A pesquisa da Skift também identificou uma mudança na forma como viajantes descobrem e escolhem opções de viagem: a busca tradicional, baseada em comparar dezenas de resultados, vem sendo substituída por uma dinâmica de pergunta e resposta, em que uma única recomendação de um assistente de IA pode substituir uma página inteira de opções. Para Moura, essa transformação também vai chegar à forma como o gestor de viagens compra e negocia. “Se o viajante já decide olhando para uma recomendação só, o próximo passo é a própria gestão da viagem passar a funcionar assim, com decisão mais rápida e menos telas para navegar. Quem entender essa mudança primeiro sai na frente”, conclui.

Sobre Luiz Moura

Luiz Moura é empreendedor com mais de 20 anos de atuação na interseção entre turismo e tecnologia. É cofundador e CBO da VOLL, maior plataforma de gestão de viagens e despesas corporativas da América Latina, além de uma referência no desenvolvimento do setor de viagens corporativas. Especialista em Marketing pela Fundação Dom Cabral, ocupa cadeiras no Conselho de Turismo da FecomercioSP e no conselho da Alagev (Associação Latino-Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas). Neste ano, foi selecionado pela GBTA como um dos treze profissionais escolhidos globalmente para concorrer a três cadeiras do Global Board of Directors da associação. Viajante frequente e observador atento do comportamento humano em movimento, escreve e fala sobre inovação, transformação digital, liderança empreendedora e o futuro das viagens corporativas.