Colunistas: Daniel Carneiro

Rua da Cerveja ou Rua da Música? Ou: como o Rio de Janeiro mais uma vez subvaloriza seu capital cultural.

Colunistas Cultura Daniel R Carneiro Políticas Turismo

por Daniel R.Carneiro

Há pouco mais de dois anos a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou a intenção de promover a tradicional Rua da Carioca, no Centro da cidade, a Rua da Cerveja, projeto que já está em fase de execução, com a recuperação do calçamento de pedestres e a abertura de alguns novos estabelecimentos. Ideia interessante e louvável, se a cidade já não contasse com inúmeras “ruas da cerveja” do Centro à Zona Oeste e da Zona Norte à Zona Sul.

Em nosso entender, uma proposta incompleta, pois menospreza a principal vocação deste logradouro histórico e de seus arredores, que é a MÚSICA!

Na Carioca está sediada a Casa do Choro, espaço cultural que promove um dos primeiros e mais ricos gêneros musicais genuinamente brasileiros, no qual se destacaram grandes nomes como Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Benedito Lacerda, Jacob do Bandolim e Paulinho da Viola;

Junto à Carioca está uma das maiores e mais antigas escolas públicas de música do país, a Escola de Música Villa-Lobos , batizada com o nome do compositor erudito brasileiro de fama mundial;

Na Carioca está a maior concentração de lojas de instrumentos musicais do Estado do Rio de Janeiro (e talvez uma das maiores do Brasil);

Em seu entorno estão três grandes teatros (o João Caetano, o Carlos Gomes e o Espaço Cultural BNDES), além de haver outros espaços que podem ser adaptados para receber espetáculos musicais, como o histórico mas hoje degradado Cinema Íris;

Próximas à Carioca há ainda diversas igrejas que poderiam ser palco de concertos de música erudita, com destaque para o Convento de Santo Antônio, a Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro, a igreja de São Francisco de Paula e a Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro;

Também em seu entorno, há um número expressivo de lojas de discos (CD e vinil) usados, atraindo muitos colecionadores e amantes da música.

A promoção da Carioca a Rua da Música não anula a intenção original da Prefeitura em atrair para lá bares, restaurantes e lojas de produtores de cervejas. Ao contrário, potencializa sua vinda ao enriquecer a região com uma vida cultural vibrante.

Sendo assim, propomos à Prefeitura Municipal repensar e expandir a abrangência de seu projeto original, elevando a Carioca a Rua da Música (ou a ela e seu entorno a Polígono da Música), tendo como ações:

  • Revitalização de todo o casario – fachadas, estrutura e interiores – da Rua da Carioca (priorizando os espaços dedicados à música como a Escola de Música Villa-Lobos, Casa do Choro e teatros) e ruas e praças adjacentes visando, além da valorização paisagística, tornar a região atraente para os investidores, artistas e novos moradores;
  • A criação de incentivos fiscais visando atrair empresas, entidades e artistas relacionados à música (escolas de música e dança, gravadoras, estúdios e produtoras musicais e de eventos, músicos, escritórios de representações e showrooms de fabricantes de instrumentos musicais, luthiers, oficinas de manutenção de instrumentos, desenvolvedores de software para música e produção musical) por meio da redução ou isenção temporária de impostos e financiamentos sob condições especiais;
  • Revitalização do antigo Cinema Íris (hoje reduzido à condição de sala de exibição de filmes pornô de baixa categoria), capacitando-o a receber espetáculos musicais;
  • Revitalização dos antigos Bilhares Guanabara (vizinhos à Praça Tiradentes e Teatro Carlos Gomes) transformando-o em espaço para dança e apresentações da jazz e de samba ou outros gêneros musicais dançantes;
  • Criação de anfiteatros para apresentações musicais populares de artistas independentes na Praça Tiradentes, no Largo de São Francisco e no espaço eentre a Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UFRJ e Teatro João Caetano;
  • A volta do projeto “Música nas Igrejas”, que promovia concertos de música erudita em templos religiosos cariocas, utilizando como salas de apresentações algumas das igrejas já aqui mencionadas e estendendo a abrangência do projeto, antes restrito à música erudita, à música instrumental em outros gêneros musicais que respeitem o caráter espiritual desses espaços;
  • E, por último, a elaboração de um calendário de eventos culturais para a futura Rua ou Polígono da Música, incentivando e priorizando a participação de artistas cariocas e fluminenses independentes e abrangendo, sem discriminações, os mais diversos gêneros musicais.

Conforme já ressaltamos, nossa proposta não anula ou inviabiliza a ideia inicial de se transformar a Carioca em uma “Rua da Cerveja”, mas sim enriquece-a ao ampliar seu escopo, criando condições para que esse tradicional logradouro carioca venha a ter a relevância cultural que merece, atraindo para a região mais investidores, novos moradores, mais visitantes e frequentadores habituais, contribuindo efetivamente, desta forma, para a Revitalização do Centro do Rio de Janeiro.

Daniel Rosado Carneiro, nascido no Rio de Janeiro em 19 de agosto de 1965, é analista de sistemas graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pós-graduado MBA em Gestão de Projetos em TI pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É agente de viagens formado pela Escola de Turismo CIETH, fotógrafo autodidata e jornalista de turismo especializado em aviação comercial e cruzeiros marítimos.